Quem procura acha...

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O FLAGRANTE - Luiz Fernando Veríssimo

José olha fundo nos olhos de Roberto. Os dois levantam suas taças.

– A nós.

– A nós.

Bebem, olhos nos olhos. Nisto a porta do apartamento se abre e entra uma mulher.

– Sueli! - exclama José....

– Arrá! - diz Sueli. – Te peguei!

– O que você está fazendo aqui?

– Me enganando. E com outro homem!

– Sueli, em primeiro lugar, você não me "pegou", porque nós não estávamos fazendo nada. Em segundo lugar, mesmo que estivéssemos fazendo alguma coisa, eu não estaria "enganando" você, pela simples razão de que nós não somos mais casados. Nos divorciamos há muito tempo e eu não devo mais satisfações a você. Se você tem medo de ser enganada, preocupe-se com seu atual marido e...

– Você quer ficar quieto, José? – interrompe Sueli – não estou falando com você. Estou falando com ele.

José aponta para Roberto.

– Com ele?

– É. Meu atual marido.

– Seu marido?!

Roberto está quieto. José, para Roberto:

– Você não me disse que era casado!

– Cala a boca, José – ordena Sueli. Depois dirige-se a Roberto.

– E então, o que você me diz? Dois meses de casado e você já anda com um qualquer. Seu pilantra!

– Um qualquer, não – protesta José. – Lembre-se que eu já fui seu marido.

Sueli começa a chorar. Roberto se aproxima dela.

– O que é isso, Sueli? Fique calma. Nem parece você. Vamos, Suelizinha...

– Não chama de Suelizinha que ela não gosta – instrui José.

Tarde demais.

– Não me chama de Suelizinha!

– Deixa que eu sei fazer – diz José, afastando Roberto e abra¬çando Sueli. – Vamos, Su. Que bobagem.

José beija a orelha de Sueli e mostra para o outro.

– A orelha é importante. Ó.

– Morde ou só beija?

– Pode dar uma mordidinha.

– Deixa eu tentar.

Roberto afasta José e abraça Sueli. Começa a mordiscar sua orelha. Dá resultado. Sueli se acalma. Mas agora José está enciumado.

– Que foi? – pergunta Roberto, notando a cara de José.

– Nada.

– Nada, não. Você está chateado.

– Não é nada.

– Faz cafuné nele — diz Sueli.

– O quê?

– Faz cafuné que ele gosta. Em cima da cabeça.

Roberto começa a fazer cafuné em José. Ao mesmo tempo, mordisca a orelha de Sueli. Nisso a porta se abre e entra outra mulher.

– Anita! – exclama José.

– Eu sabia. Segui você até aqui porque sabia que ia encontrar uma cena assim. Você não tem vergonha? Depois de todas as juras que fizemos?

– Anita, não é nada do que você está pensando – diz José.

– Eu...

– Quer ficar quieto, José? Eu estou falando com ela.

José aponta para Sueli.

– Com ela?!

– Anita – diz Sueli –, vem cá.

Anita se junta ao grupo. Sueli a abraça.

. – Pronto, pronto – diz Sueli.

– Roça a nuca dela com o queixo – instrui José.

– Assim?

– É.

Ficam os quatro de pé no meio da sala. Roberto mordiscando a orelha de Sueli, que roça a nuca de Anita com o queixo, e fazendo cafuné em José, que, sem ter o que fazer, pergunta:

– O caso de vocês duas começou antes ou depois do nosso casamento?

– Não é a hora, José – diz Sueli.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Um oásis no deserto [Martha Medeiros]


Aconteceu no Rio, pelo que ouvi falar. Um garoto aparentando ter uns 19 anos resolveu improvisar um pocket show usando uma esquina da cidade como palco: a cada vez que o semáforo fechava, ele se posicionava na frente dos carros e tocava saxofone por um minuto. Aí o sinal abria e ele voltava para a calçada. Não era malabarismo para garantir uns trocados. Ele fez isso por... sei lá, sugira você uma razão: farra, vaidade, benemerência, esperança de cruzar com um produtor musical? O que importa é que fez, e o curioso é que, assim que o sinal abria, os motoristas custavam a arrancar seus carros, perdiam a pressa. Haviam se deparado com um pequeno oásis em meio ao caos.



Cheguei do Marrocos há poucos dias, um país encantador, com uma biodiversidade de tirar o fôlego. Cruzei a árida cordilheira Atlas, percorri um pequeno trecho de uma trilha que já fez parte do Paris-Dakar e cheguei a dormir uma noite num acampamento de tuaregues em pleno deserto: tudo estupendo, mas seco. Ainda assim, engolindo areia, fui surpreendida várias vezes por alguns oásis que quebravam o jejum.



Fazia-se uma curva na estrada e de repente se vislumbrava um conjunto de palmeiras verdes, tão verdes que pareciam pinceladas à mão. De onde brotavam, de que solo fértil, de que estúdio cenográfico? Pareciam miragens.

Aterrissei de volta ao Brasil e entre as notícias de um apagão inexplicável e de um escândalo mais inexplicável ainda por causa de uma reles minissaia que gerou teses sociológicas, preferi me ater a essa história do garoto saxofonista que fazia shows de um minuto no agito das ruas, silenciando os buzinaços com sua música. Pensei: também é um oásis.

O que não falta por aí são pessoas com vidas desérticas, pensamentos viciados, gente presa em calabouços e respirando por aparelhos, sem dedicar um minuto, um minutinho que seja por dia, a criar seu próprio oásis. Os nossos podem ser tão numerosos quanto os que eu encontrei naquelas paisagens marroquinas em tons de terracota, em que já não se distingue o que é cor original ou desbotada, uma estética da solidão que tem sua beleza e força, mas que clama por um pouco de oxigênio.

As pessoas dizem que a tecnologia, que deveria servir para agilizar o nosso trabalho e liberar mais tempo para o lazer, está, ao contrário, produzindo ainda mais trabalho e mais estresse. A culpa não é da tecnologia, que, pelo que sei, ainda não tem cérebro, mas de seus usuários, que deveriam pensar mais em vez de entrarem na paranóia de preencher cada hora do seu dia com atividades produtivas, ignorando a produtividade que também há num encontro entre amigos, num cinema, numa caminhada, na audição de um disco, na meditação, num fim de semana longe da cidade, na leitura de um livro, num passeio de bicicleta, num namoro, no desprezo à lógica e no respeito aos acasos. Esses são os verdadeiros oásis, ao contrário dos oásis fabricados, como, por exemplo, restaurantes da moda onde não se come bem nem se ouve ninguém.



O saxofonista no meio da rua nada mais fez do que ofertar à vida opaca um toque de verde.


(publicado na "Revista" do Jornal O Globo no dia 22/11/09)

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Em que creem os que não creem? Por Marcio Retamero


Tomo a liberdade de reproduzir este texto aqui porque além de admirar muito o trabalho desenvolvido por Márcio Retamero na Igreja Betel no Rio de Janeiro, achei o texto extremamente pertinente para este blog, que como disse uma pessoa, é para surtar mesmo! Então, sente-se confortavelmente, respire fundo, e lá vamos nós!

Desde que iniciei aqui no A Capa, tenho vontade de escrever sobre os que não professam uma fé. Aliás, na entrevista que dei e que inaugurou este espaço, prometi e não me esqueci, que abordaria a questão da religião em suas diversas expressões, não apenas cristã.


"Em que creem os que não creem?", é o título de um livro publicado no Brasil pela Editora Record (2002, 156 páginas). O belo livro nasceu da troca epistolar entre dois homens: um ateu e um Príncipe da Igreja de Roma, Arcebispo Emérito de Milão: Umberto Eco e Carlo Maria Martini, respectivamente. A correspondência entre os dois homens tão diferentes em matéria de religião girou em torno de temas importantes para a humanidade como questões ecológicas (abordadas na perspectiva da possibilidade do fim do planeta), a vida humana (onde ela tem início, a eutanásia etc.), o papel dos seres humanos na Igreja (misoginia, homossexualidade, o laicato), e, por fim, a ética. Completa o livro, além deste diálogo, um "coro", formado por dois filósofos, dois jornalistas e dois homens da política. Permanece como fio condutor das reflexões o binário: fé e não fé.

O livro é uma aula eletrizante sobre a visão dos que creem e dos que não creem sobre os temas acima elencados e nos ajuda muito na compreensão que é possível uma "ponte" entre essas duas posturas na vida. Os que creem geralmente pensam que os que não creem são aquelas pessoas que, por não observarem os "dez mandamentos" ou qualquer tipo de "lei divina", são pessoas descomprometidas com a ética, a verdade, o bem comum, os valores de igualdade, fraternidade, liberdade e tudo o mais que é capaz de tornar melhor a grande tribo da humanidade.

Os que creem se esquecem da História e que as piores mazelas produzidas pelos seres humanos neste mundo: guerras, genocídios, escravidão, homofobia, exclusão, racismo etc. nasceram à sombra da torre de uma catedral ou de cabeças que liam e mal compreendiam as Escrituras Cristãs. Os que creem e são nossos contemporâneos, se esquecem que ainda é este "time" que tanto mal fez no passado, continua fazendo mal, hoje, quando corroboram com toda espécie de crendice que só escraviza o ser humano, arrancando dele o pouco do dinheiro que ele tem, vendendo-lhe promessas falsas, curas que jamais acontecerão, salvação de um inferno dantesco e medieval, portanto, inexistente.

Os que creem se esquecem que são eles que trabalham contra o pleno desenvolvimento da ciência, contra a plena cidadania de gays e lésbicas, contra laicidade do Estado (e aqui são convenientes, ora advogando a causa da laicidade do Estado quando lhes interessa como no caso do Acordo Brasil - Vaticano). Os que creem se esquecem que é o discurso deles, a partir de uma visão estrábica e pervertida das Escrituras que produz tanta mazela social, tanta crendice sem lógica, tanta coisa que só serve para atrasar ainda mais a evolução humana.

Os que não creem jamais organizaram algo como as Cruzadas. Jamais escreveram teses, defendendo a inexistência de alma nos negros. Jamais fundaram confrarias para vender mentiras, falsas curas, falsas esperanças. Jamais tomaram posse de títulos pomposos como "paipóstolo", "apóstolo", "bispa", "missionário", "pastor", "cardeal", "papa" etc. com o objetivo de, pelo importante e pomposo título, suscitar respeito no outro, até mesmo medo, usando de uma autoridade inventada para subjugar, roubar, "coisificar" pessoas. E quem falar em comunismo ou até mesmo no tal "Livro Negro do Comunismo" como prova de que os ateus já agiram como agem ainda os que creem, já digo para irem estudar melhor a História, porque nem tem cabimento!

Todavia, os que creem assim como os que não creem não são dois grupos homogêneos. Entre eles existem as exceções; poderia ser diferente tratando-se de gente? Entre os que creem existem aqueles que valorizam e andam segundo a Lei do Amor, revelada por Jesus. Tem aqueles que prezam por uma ética cristã em relação ao outro, ainda que este outro não aja como ele, não pensa como ele, não creia como ele. Entre os que creem, existem aqueles que enxergam na ciência uma importante e indispensável auxiliadora da humanidade. Existem aqueles que sabem separar religião e Estado e até militam para que seja assim, pois isso é que é o correto. Existem aqueles que lutam verdadeiramente por um mundo melhor, agindo pelo amor, este sentimento revolucionário capaz de derrubar qualquer muro que separa seres humanos.

Entre os que creem, existem os que trabalham academicamente com a Escritura Cristã, "desmitologizando-a", desconstruindo-a, a fim de jogar por terra toda e qualquer tipo de crendice que só beneficia quem ganha sacos e sacos abarrotados de dinheiro dos inocentes. Tem aqueles que enxergam os que não creem, os ateus, seus semelhantes, não opositores que devem ser combatidos.

Entre os que não creem - os ateus - existem os que sem lei de Deus algum, tem lei no coração e agem de acordo com esta para o bem comum. Tem aqueles que mesmo não crendo num Ente Divino capaz de julgá-lo e lançá-lo no tal inferno, conduzem suas vidas com honestidade, com equidade, com justiça, com domínio próprio, com alegria, temperança, humildade e todos esses valores que nós cristãos achamos que só nós que temos e que a História, bem como a vida deles, nos desmente.

Entre os que não creem existem pessoas que escrevem as mais belas poesias que a humanidade já leu (Fernando Pessoa era ateu), as mais belas músicas que a humanidade já ouviu, as mais belas pinturas e esculturas que nossos olhos contemplam. Entre os que não creem existem pessoas que nos presenteiam com os mais belos filmes que nos fazem refletir sobre nosso caminhar na terra e até mesmo a mudar o rumo dos nossos passos. Entre os ateus existem os que lutam pela "Mãe Gaia", não apenas fazendo protestos, mas trabalhando de fato pela ecologia.

Entre os que creem e os que não creem, enfim, existem aqueles como Umberto Eco e o Cardeal Martini, seres humanos que, no diálogo, mesmo mantendo sua fé ou sua falta de fé, são capazes de derrubar muros e construir esperanças, visando o bem, o desenvolvimento, a "salvação" enfim da humanidade. Eu sei que eles não são os únicos. Sei que por ai existem outros crentes e outros ateus capazes deste diálogo frutífero, dessa ação comum que só fará melhor o mundo em que vivemos. Não me importa se você que lê este texto crê ou não crê em Deus; importa-me é se você deseja viver num mundo melhor, se você quer juntar suas mãos com as mãos daqueles que já trabalham por isso e se você consegue enxergar no outro, não importando absolutamente nada, teu igual, teu semelhante. Há salvação!

**Dedico este artigo ao William Magalhães, nosso companheiro aqui no A Capa.

* Márcio Retamero, 35 anos, é teólogo e historiador, mestre em História Moderna pela UFF/Niterói, RJ. É pastor da Comunidade Betel do Rio de Janeiro - uma Igreja Protestante Reformada e Inclusiva -, desde o ano de 2006. É, também, militante pela inclusão LGBT na Igreja Cristã e pelos Direitos Humanos. Conferencista sobre Teologia, Reforma Protestante, Inquisição, Igreja Inclusiva e Homofobia Cristã. Seu e-mail é: revretamero@betelrj.com.

FONTE : http://acapa.virgula.uol.com.br/site/noticia.asp?codigo=9762

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Você acredita?

Um rato, para enganar a mãe natureza, virou morcego um dia,


camaleões se camuflam, assustados, para fugirem do predador,

cães se fingem de mortos, patéticos, para agradar,

gatos roçam por entre as pernas, interesseiros, para pedir leite,

e todo mundo finge que isso é normal!



Humanos mentem...

para ter prazer, para tomar o prazer.



Mentem por mentir...

...para agradar...

...para se proteger...

...para trepar...

...por dinheiro...

...para comer...

...para conviver...

...por interesse...

...por medo...

...patéticos ...

e todo mundo finge que isso é normal



E mentem !



Fingem que são felizes, mentem!

Riem quando querem chorar, mentem!

São solícitos, quando na verdade querem ir embora, mentem!

Fazem-se de amigos, quando na verdade querem sexo, mentem!

Dizem que vão ligar e não ligam, mentem!

Fingem que se importam e também não ligam, de novo, mentem!



O mundo está cada vez mais perigoso,

e todo mundo finge que isso é normal!



Qual é a maior mentira?

A do mentiroso que contou?

Ou a do idiota que acreditou?



Quem mentiu?

O outro para você,

ou você, para si mesmo,

querendo acreditar?
 

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O Livro da maldade

Não gosto de nada as claras,


não faço nada as claras,

minha vida não é as claras.



Felicidade não é alegria.

Sou feliz sem sorriso.



Acho graça de quem fala a verdade.

Tenho medo de quem é alegre.

Fujo de quem sorri demais.



Meu coração lancina

no limite aceitável

de luxúria e devassidão.



O louco, o tonto, a morsa,

A todos encantam.

Mas passam efêmeros

Pela estrada que leva ao nada.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Recebi essa por email





Recebi essa por email, como não tenho paciência para ficar repassando e sei que a nossa Caixa de Entrada é diariamente entupida com um monte de coisas, estou postando essa mensagem aqui para quem interessar possa.


São argumentos muito válidos e abrange exatamente o que eu acredito sobre essas campanhas de doação que se fazem na TV. A publicidade quer que você se sinta mal em não "ajudar", leia essa carta aberta e reflita sobre o assunto, será que realmente vale a pena?

"Carta aberta, de Eliane Sinhasique, para Renato Aragão, o Didi. Nota DEZ para essa mulher...

Querido Didi,

Há alguns meses você vem me escrevendo pedindo uma doação mensal para enfrentar alguns problemas que comprometem o presente e o futuro de muitas crianças brasileiras. Eu não respondi aos seus apelos (apesar de ter gostado do lápis e das etiquetas com meu Nome para colar nas correspondências).

Achei que as cartas não deveriam sem endereçadas à mim. Agora, novamente, você me escreve preocupado por eu não ter atendido as suas solicitações. Diante de sua insistência, me senti na obrigação de parar tudo e te escrever uma resposta.
Não foi por 'algum' motivo que não fiz a doação em dinheiro solicitada por você. São vários os motivos que me levam a não participar de sua campanha altruísta (se eu quisesse poderia escrever umas dez páginas sobre esses motivos). Você diz, em sua última Carta, que enquanto eu a estivesse lendo, uma criança estaria perdendo a chance de se desenvolver e aprender pela falta de investimentos em sua formação.
Didi, não tente me fazer sentir culpada. Essa jogada publicitária eu conheço muito bem. Esse tipo de texto apelativo pode funcionar com muitas pessoas mas, comigo não. Eu não sou ministra da educação, não ordeno e nem priorizo as despesas das escolas e nem posso obrigar o filho do vizinho a freqüentar as salas de aula. A minha parte eu já venho fazendo desde os 11 anos quando comecei a trabalhar na roça para ajudar meus pais no sustento da minha família. Trabalhei muito e, te garanto, trabalho não Mata ninguém. Muito pelo contrário, faz bem! Estudei na escola da zona rural, fiz Supletivo, estudei à distância e muito antes de ser jornalista e publicitária eu já era uma micro empresária.

Didi, talvez você não tenha noção do quanto o Governo Federal tira do nosso suor para manter a saúde, a educação, a segurança e tudo o mais que o povo brasileiro precisa. Os impostos são muito altos! Sem falar dos Impostos embutidos em cada alimento, em cada produto ou serviço que preciso comprar para o sustento e sobrevivência da minha família.

Eu já pago pela educação duas vezes: pago pela educação na escola pública, através dos impostos, e na escola particular, mensalmente, porque a escola pública não atende com o ensino de qualidade que, acredito, meus dois filhos merecem. Não acho louvável recorrer à sociedade para resolver um problema que nem deveria existir pelo volume de dinheiro arrecadado em nome da educação e de tantos outros problemas sociais.

O que está acontecendo, meu caro Didi, é que os administradores, dessa dinheirama toda, não têm a educação como prioridade. Pois a educação tira a subserviência e esse fato, por si só não interessa aos políticos no poder. Por isso, o dinheiro está saindo pelo ralo, estão jogando fora, ou aplicando muito mal. Para você ter uma idéia, na minha cidade, cada alimentação de um presidiário custa para os cofres públicos R$ 3,82 (três reais e oitenta e dois centavos) enquanto que a merenda de uma criança na escola pública custa R$ 0,20 (vinte centavos)! O governo precisa rever suas prioridades, você não concorda? Você pode ajudar a mudar isso! Não acha?

Você diz em sua Carta que não dá para aceitar que um brasileiro se torne adulto sem compreender um texto simples ou conseguir fazer uma conta de matemática. Concordo com você. É por isso que sua Carta não deveria ser endereçada à minha pessoa. Deveria se endereçada ao Presidente da República. Ele é 'o cara'. Ele tem a chave do Cofre e a vontade política para aplicar os recursos. Eu e mais milhares de pessoas só colocamos o dinheiro lá para que ele faça o que for necessário para melhorar a qualidade de vida das pessoas do país, sem nenhum tipo de distinção ou discriminação. Mas, infelizmente, não é o que acontece...

No último parágrafo da sua Carta, mais uma vez, você joga a responsabilidade para cima de mim dizendo que as crianças precisam da 'minha' doação, que a 'minha' doação faz toda a diferença. Lamento discordar de você Didi. Com o valor da doação mínima, de R$ 15,00, eu posso comprar 12 quilos de arroz para alimentar minha família por um mês ou posso comprar pão para o café da manhã por 10 dias.

Didi, você pode até me chamar de muquirana, não me importo, mas R$ 15,00 eu não vou doar. Minha doação mensal já é muito grande. Se você não sabe, eu faço doações mensais de 27,5% de tudo o que ganho. Isso significa que o governo leva mais de um terço de tudo que eu recebo e posso te garantir que essa grana, se ficasse comigo, seria muito melhor aplicada na qualidade de vida da minha família.

Você sabia que para pagar os impostos eu tenho que dizer não para quase tudo que meus filhos querem ou precisam? Meu filho de 12 anos quer praticar tênis e eu não posso pagar as aulas que são caras demais para nosso padrão de vida. Você acha isso justo? Acredito que não. Você é um homem de bom senso e saberá entender os meus motivos para não colaborar com sua campanha pela educação brasileira.
Outra coisa Didi, mande uma Carta para o Presidente pedindo para ele selecionar melhor os ministros e professores das escolas públicas. Só escolher quem, de fato, tem vocação para ser ministro e para o ensino. Melhorar os salários, desses profissionais, também funciona para que eles tomem gosto pela profissão e vistam, de fato, a camisa da educação. Peça para ele, também, fazer escolas de horário integral, escolas em que as crianças possam além de ler, escrever e fazer contas possa desenvolver dons artísticos, esportivos e habilidades profissionais. Dinheiro para isso tem sim! Diga para ele priorizar a educação e utilizar melhor os recursos.

Bem, você assina suas cartas com o pomposo título de Embaixador Especial do Unicef para Crianças Brasileiras e eu vou me despedindo assinando... Eliane Sinhasique - Mantenedora Principal dos Dois Filhos que Pari.

P.S.: Não me mande outra carta pedindo dinheiro. Se você mandar, serei obrigada a ser mal-educada: vou rasgá-la antes de abrir.

PS2* Aos otários que doaram para o criança esperança. Fiquem sabendo, as organizações Globo entregam todo o dinheiro arrecadado à UNICEF e recebem um recibo do valor para dedução do seu imposto de renda. Para vocês a Rede Globo anuncia: essa doação não poderá ser deduzida do seu imposto de renda, porque é ela quem o faz.

PS3* E O DINHEIRO DA CPMF QUE PAGAMOS DURANTE 11(ONZE) ANOS?

MELHOROU ALGUMA COISA NA EDUCAÇÃO E NA SAÚDE DURANTE ESSES ANOS?

BRASILEIROS PATRIOTAS (e feitos de idiotas) DIVULGUEM ESSA REVOLTA..."

terça-feira, 1 de setembro de 2009

MATEMÁTICA DE MENDIGO

Parabéns ao estagiário que elaborou essa pesquisa, pois o resultado que ele conseguiu obter é a mais pura realidade.

Preste atenção...

Um sinal de trânsito muda de estado em média a cada 30 segundos (trinta segundos no vermelho e trinta no verde). Então, a cada minuto um mendigo tem 30 segundos para faturar pelo menos R$ 0,10, o que numa hora dará: 60 x 0,10 = R$6,00.

Se ele trabalhar 8 horas por dia, 25 dias por mês, num mês terá faturado: 25 x 8 x 6 = R$ 1.200,00.

Será que isso é uma conta maluca?

Bom, 6 reais por hora é uma conta bastante razoável para quem está no sinal, uma vez que, quem doa nunca dá somente 10 centavos e sim 20, 50 e às vezes até 1,00.

Mas, tudo bem, se ele faturar a metade: R$ 3,00 por hora terá R$600,00 no final do mês, que é o salário de um estagiário com carga de 35 horas semanais ou 7 horas por dia.

Ainda assim, quando ele consegue uma moeda de R$1,00 (o que não é raro), ele pode descansar tranqüilo debaixo de uma árvore por mais 9 viradas do sinal de trânsito, sem nenhum chefe pra 'encher o saco' por causa disto.

Mas considerando que é apenas teoria, vamos ao mundo real.

De posse destes dados fui entrevistar uma mulher que pede esmolas, e que sempre vejo trocar seus rendimentos na Panetiere (padaria em frente ao CEFET ). Então lhe perguntei quanto ela faturava por dia. Imagine o que ela respondeu?

É isso mesmo, de 35 a 40 reais em média o que dá (25 dias por mês) x 35 = 875 ou 25 x 40 = 1000, então na média R$ 937,50 e ela disse que não mendiga 8 horas por dia.

Moral da História :

É melhor ser mendigo do que estagiário (e muito menos PROFESSOR), e pelo visto, ser estagiário e professor, é pior que ser Mendigo...

Se esforce como mendigo e ganhe mais do que um estagiário ou um professor.

Estude a vida toda e peça esmolas; é mais fácil e melhor que arrumar emprego.

E lembre-se :

Mendigo não paga 1/3 do que ganha pra sustentar um bando de ladrão.

Viva a Matemática.